O amor e o relógio não conversam Sem lógica o amorsemtempo ressucita A cada volta suicida Em torno dos sessenta universos E em versos sobressaltos taciturnos O amor - seus afetos, seus returnos - Amadurece e ama mais. O amor e o relógio sobrevivem Sem ternura aturam o tempo dia a dia Sempre cegos improvisam cada volta E retornam mudos as doze horas Taciturna roda, letargia. Mês a mês, ano a ano, passo a passo, Passam de mãos dadas amor e tempo Irmãos em versos, vida e caminhos Não conversam, tocam com carinho Um ao outro, a cada volta do ponteiro.
Escrito por Roger Cabal às 09:32
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Escrito por Roger Cabal às 12:52
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Tempos
Há tempos em que a compreensão se cala
E o próximo passo tateia a beira do abismo
Tempos de áspera e inaudível solidão
E a única cor é o escuro
E um muro de musgo frio
impede o olhar.
Tempos de Babel
Em que o Outro me intimida e diminui.
"Me abraça, me abraça, amor,
que a tua linguagem eu entendo...
Seus lábios de lã
Me abraçam
me salgam
e me afastam do mal."
Há tempos de portos,
há tempos de deriva.
Escrito por Roger Cabal às 12:43
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Hai kai (Natalino 6)
Hai-kai
Dezembro.
O Natal
chove em mim.
Escrito por Roger Cabal às 10:08
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Natalino 5
Cada vez que anoitece,
temo compreender todas as coisas
num repente de consciência.
Assim, temo saber de tudo
e superar os mistérios,
as lacunas, os malentendios,
os sofismas, as crenças.
O meu desejo é permanecer ignorante.
E experimentar cada coisa como se fosse um presente.
Infantil - como disse a Catita -
quero dançar como pião de madeira
quero voar como pipa de papel de seda
e saudar meus amigos como um cãozinho viralatas.
Mas, principalmente, quero morrer
como quem desata o laço de fita do pacote
- por tanto tempo, esperado pacote -
no pé do pinheiro da sala de estar.
Escrito por Roger Cabal às 10:29
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The silent night (Natalino 4)
Os sinos soam
e sob as alegres vozes em torno da mesa
meu coração descobre o silêncio.
Escrito por Roger Cabal às 10:23
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Natalino 3
A rua do comércio fechou suas portas
como lânguida prostituta cansada do farnel
As lampadinhas chinesas apagaram-se no pinheirinho da sala
e os papéis de seda multicoloridos restam da festa no quarto das crianças.
O Natal está posto na mesa da cozinha:
um manjar branco e um café bem forte
- bombocados de graças e sorrisos, cuidados e carinhos.
No cimento, nas borras do carvão de lenha,
o gato malhado se espreguiça,
cansado do novo ano que já bate na porta.
Mais tarde, vou sentar no quintal
com seu Maurício e seu Jorge
pra beber uma pinga
e falar da vida, das mulheres e das canções
- nossas únicas especialidades.
E vamos ouvir as modas caipiras
até a cana e a noite entorpecerem nossos juízos
e fecharmos os olhos,
cheios de amizade e natais.
Escrito por Roger Cabal às 08:58
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Natalino 2
Nunca fui um bom menino...
Apesar de me terem advertido,
tenho principalmente me divertido
na vida.
E amado,
caso isso possa ser usado a meu favor...
Talvez por isso nos pés de meia coloridos
pendurados nas falsas lareiras imaginadas
nunca encontrei nada de útil.
Apenas cacarecos de um Noel bonachão e vingativo...
Nunca fui um bom menino e agora
guardo no fundo da minha alma de Pandora
minha querida caixa de inutilidades
Escrito por Roger Cabal às 10:41
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Natalino 1
Uma réstia de sol convida
Vamos varrer os pátios sob os umbrais
Nas soleiras, penduremos vasos de plantas
Troquemos as águas dos potes
Abramos janelas e portas
Para o vento decembrino
Mesmo na cozinha americana,
meu coração e minhas tristezas
aquecem panelas de barros
assopram brasas de lenha
- centelhas -
de antigos e infinitos Natais.
Para mim a vida tem sido
como o bombocado umedecido
da ranzinza Tia Alzira.
Escrito por Roger Cabal às 08:55
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Ao vento
Ao vento
Passarei
Como leve brisa a mover
Uma suave cortina de seda
Do quarto onde te amei
Um sussuro
Deixarei
Perto do velho brinco de pérola
Lembranças de tanto amor
Recitarei em silêncio
E você, sorrirá
Tristemente feliz,
Caminhará pelo apartamento vazio,
A me buscar nos objetos antigos,
Resquícios de amor eterno.
Até achar a folha ressequida
Trazida com o vento, enfim.
Com cuidado a deitará
No último verso do poema
- o último que escrevi –
Pra você e para mim.
Escrito por Roger Cabal às 09:02
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Escrito por Roger Cabal às 09:19
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E agora?
O mais doloroso da solidão
Não é estar só, em si.
Mas é saber
Que no vão inquieto das horas
Apesar do desejo e da ânsia
Ficarei só, sem querer.
A solidão em mim não dói,
Nem doença é, na noite febril.
É mais como uma estação de trem vazia.
É uma conformidade
Um não ter assento no mundo
É como abraçar um poste
E ler os cartazes colados no poste
E os telefones anunciados nos cartazes
E os vultos das janelas
- Tudo é indício
De que há pessoas no mundo
Mas eu não as consigo ver
E suas vozes são ecos do mundo
Mas mesmo que me apontassem na praça
E fizessem em torno de mim uma roda
E me envolvessem num abraço
De suores, sorrisos e calores,
Mesmo assim, me sentiria só.
Sou alheamento, ausência.
E nada que não seja em mim
Me interessa vivamente.
Amar me é como atrasar-se
e ver o trem partido há pouco
da plataforma vazia.
E perguntar-se,
Numa inexorável angústia e derrota:
E agora, meu Deus...
e agora?
Escrito por Roger Cabal às 09:13
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Tua boca, minha espada

Tua boca, meu pescoço
- pétala, tronco, fogo -
a lareira criptante
cantando pecados ouço.
Tua boca, meu umbigo
- pétala, tronco, fogo -
panos de seda anunciam
caminhos por onde sigo.
Tua boca, minha espada
- pétala, tronco, fogo -
A lua beijando a noite
Umedece a madrugada.
Escrito por Roger Cabal às 09:09
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Voltei!
Estou de volta. Computador novo. Vamos continuar...
Abs
Roger
Escrito por Roger Cabal às 09:05
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Cena
Ruas brilhantes são veias.
Meio-dia. Na cidade dourada
asfalto amargo e quente
beija os brancos pés sem meias
da mulher atropelada.
Escrito por Roger Cabal às 07:10
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Segundo me disseram
Segundo me disseram
Nunca há segunda vez
Nem nunca se banha por segundo
No rio que segundo dizem
Não passa na minha aldeia.
Mas se tivesse uma segunda chance
Tentaria não carregar tantos motivos
- tantas segundas tentativas -
em vão.
Não tenho como me desculpar de mim...
Escrito por Roger Cabal às 07:08
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Setenta vezes sete
Setenta vezes sete
Setembros sete-voltando
Infinitos setes passando
Velozes ao redor de mim
Sete caminhos trilhados
Sete infinitos destinos
Sete vidas tão curtas
Para viver ao seu lado
Setenta vezes viveria
Sete vezes namorado
Eterno amor, sete vezes Sete vidas ao teu lado
Escrito por Roger Cabal às 07:06
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Cão sem dono
Compartilho teu abandono
- ô cão sem dono –
Deixaste atrás de ti
O rastro indefectível
Da desconsideração.
Aleto a ti, como a mim,
Da velocidade dos carros,
Da umidade fria do asfalto,
Da doce morte urbana e,
Se queres mesmo,
Atravessa agora,
Antes que desgraçado passe,
E te ignore –
Ô cão sarnento –
De volta ao relento.

Escrito por Roger Cabal às 17:34
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Hai kai
O mudo muro
Estanco
Duro silêncio.

Escrito por Roger Cabal às 17:21
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Pequeno roteiro de vida
Para Gabriel Abdalla
A vida com seu mistério
Enche balões coloridos
Com perguntas e surpresas
O tempo vilão deletério
Aperta os peitos doídos
Com suas frases suspensas
Mas você, Gabriel, não vai
Fazer diferente
Do menino inteligente
Que conheci
– Lá um século se vai –
Num trabalho diligente:
Siga os passos do seu pai.
Cave nas paredes aberturas
E nas mentes obtusas,
Vento
Com as engrenagens
Do desmonte,
Monte um tempo,
Mais lento
E chute canelas
Pois se existem canelas
São para serem chutadas Com belas botas ortopédicas
Escrito por Roger Cabal às 15:32
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Pequeno roteiro de vida (continuação)
E domine as probabilidades.
E seja um ás do volante.
E conheça duas mil cidades.
E aposte em pelo menos um
Projeto mirabolante...
E descanse, que a vida
É longa – às vezes muito longa.
E é bela – às vezes muito bela.
E para vê-la
É preciso tempo e janela.
E seja turrinha,
Teimoso,
Peremptório.
Mesmo inseguros
Todos temos direito
A nossas convicções.
E – o mais importante –
Ignore os conselhos!
Pois mesmo os mais sábios da vida
Morrem
Tremendo de saudade da vida
- Da que tiveram e da que não souberam ter.
Luiz Cláudio Bido (04 e 05/06/06)
Escrito por Roger Cabal às 15:31
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Al Otro Lado del Rio Jorge Drexler
Clavo mi remo en el agua Llevo tu remo en el mío Creo que he visto una luz al otro lado del río
El día le irá pudiendo poco a poco al frío Creo que he visto una luz al otro lado del río
Sobre todo creo que no todo está perdido Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío
Oigo una voz que me llama casi un suspiro Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a
En esta orilla del mundo lo que no es presa es baldío Creo que he visto una luz al otro lado del río
Yo muy serio voy remando muy adentro sonrío Creo que he visto una luz al otro lado del río
Sobre todo creo que no todo está perdido Tanta lágrima, tanta lágrima y yo, soy un vaso vacío
Oigo una voz que me llama casi un suspiro Rema, rema, rema-a Rema, rema, rema-a
Clavo mi remo en el agua Llevo tu remo en el mío Creo que he visto una luz al otro lado del río
Escrito por Roger Cabal às 15:21
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"QUALQUER MÚSICA, ah, qualquer, Logo que me tire da alma Esta incerteza que quer Qualquer impossível calma! (...)"
Fernando Pessoa
Escrito por Roger Cabal às 07:06
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Interior

Marcas do gado, tempo,
Meu coração de barro,
minhas lágrimas,
lama.
Meus riscos nos cantos dos olhos,
marcas do gado, tempo,
alma.
Escrito por Roger Cabal às 08:57
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O bem me quer
O mal me quer
O sorriso
O choro
As flores enfeitando a casa
O estar contigo
O ausentar-se
O pouco
O quase - Nunca -
As dores habitando a casa.
Ah! Certas incertezas...
A vida
O viver
Os amores
A companhia
O abraço...
Nunca alguém me abraçou
Como você fez ontem.
Hoje o sol quarou, aqueceu
As recentes amarguras,
Os sorrisos sonegados,
Os pensamentos sepultados
As palavras natimortas
As sementes infecundas geraram
Flores novas de efêmeras pétalas...
O bem me quer
O mal me quer
Não quero ser uma flor murcha
Dentro do vaso
Dentro do quarto
Dentro da casa
do fim
da rua.
A flor murcha a enfeitar
O teu retrato mudo.
Não quero ser.
Escrito por Roger Cabal às 08:47
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A brisa leve do fim da tarde
Sobre a marina
Penteia o mar
E eu olho a infinita areia
Areia da vida toda
- Tão quente, tão seca, tão fina -
Ai, minha alma peregrina...
Tão vazia de certezas
Tão distante da marina
Tão estrangeira de portos
Tão desregrada...
Essa
brisa
leve
meu
olhar
- doce olhar sobre a marina -
por portos, a desvelar
milhões de infinitas marinas,
milhões de certezas,
Nas escondidas cidades
- misteriosas venezas -
De coloridas cortinas.
A marina, a marina,
A marina que a brisa penteia
Emoldura meu olhar
E o meu coração passeia.

http://static.flickr.com/23/40288615_482239e8b5.jpg
Escrito por Roger Cabal às 08:40
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Das palavras que falo,
quais serão minhas?
Serão minhas
mais tardias
idiossincrasias?
Serão desejos?
Medos?
Serão modos de ser?
Ventriloquias?
Por que será minha paixão
O boneco mudo
Abandonado no chão?

(http://www.tres-en-realidad.com/ImagesTextes/Oyonarte/CollectionPermanente/Dionisio/Personaje_solitario_2.jpg)
Escrito por Roger Cabal às 08:28
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Desço os degraus, me aproximo cauteloso.
Toco o corrimão brumoso, pesado,
tateio até o velho móvel de madeira
- pinus ancestral, puxadores de estanho,
talhes profundos na cor escura –
Encontro a gaveta, abro,
E, no fundo,
o encontro.
No pote canforado, um papiro.
Trago à luz. Que símbolos são aqueles?
O que dizem?
Meus olhos de estranho humano
não decifram
o enigma.
E lá fora? Essa cidade que não pára...
E tantos olhos fechados
(essa cegueira frenética e calada)
não lêem as cifras desse enigma.
Os sons, as luzes, os viadutos,
a multidão na porta do metrô,
as escolas noturnas, camelôs,
os desejos, os desejos, os desejos...
Tudo ferve...
E eu,
na minha catacumba
com esse evangelho terrível...
Sei que um dia vou repousar
às margens do lago tranqüilo
- o sol espalhado na água – como num quadro -
e os conhecimentos todos comigo...
Mas agora, a madrugada
assombra
e eu não sei o que fazer...

Escrito por Roger Cabal às 07:13
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Infrator
A marca do asfalto
marca a passagem do tempo.
Atravessei o vermelho,
avancei quando o tempo parava.
E, pálido,
um policial etéreo
me multava.
Escrito por Roger Cabal às 07:01
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Cena
Ruas brilhantes são veias.
Meio-dia. Na cidade dourada
asfalto amargo e quente
beija os brancos pés sem meias
da mulher atropelada.
Escrito por Roger Cabal às 17:00
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